O Jacu e a Noruega

Este blog é escrito por Eulina Lordelo e se tem a finalidade de enviar notícias de minha temporada na Noruega. Também divulgo minhas reflexões sobre o Jacu, minha pátria primeira, vista deste admirável mundo.

14.5.05


No escritório

30.4.05

O Jacu e a Noruega II

Caros amigos:

Por algum tempo, a partir de primeiro de maio, estarei mandando minhas notícias por outro endereco (como uma experiência). Se você tiver paciência, vá lá: www.eulinalordelo.zip.net.
Se não der certo, volto.

Abracos



Bacalhaus da Noruega

29.4.05

A salada perfeita

Não estou exagerando! Todo mundo que já provou aaadorou essa salada (claro que sempre tem os exageros dos convidados, podemos dar um desconto). Mas acredito que se trata de um prato perfeito para pequenas e grandes recepcões (e fui eu que inventei!). Todos os meus amigos e familiares já provaram, mas talvez não tenham a receita, então, vamos compartilhar.
1 pacote de kani (carne de caranguejo)
1 pote (600 g) de palmito (na Noruega pode ser encontrado em lojas de imigrantes)
1 colher de sobremesa de alcaparras
vinagre e azeite de oliva a gosto
Preparo:
Corte o palmito e o kani longitudinalmente (pode ser desfiado com os dedos), misture. Passe a maior parte das alcaparras num espremedor de alho e junte o restante. Acrescente o vinagre e o azeite às alcaparras, misture e derrame sobre a salada. Misture tudo.
Sirva como entrada de uma refeicão completa ou como um dos pratos de uma mesa de comidas variadas.Variacões funcionam bem, sendo a melhor de todas a adicão de cogumelos cortados em metades.

28.4.05

O tempo

E lá se vão cinco meses na Noruega. Duas pessoas falaram sobre o tempo de uma maneira que me impressionou muito, o primeiro foi Thomas Mann, em A montanha mágica e a segunda foi Doris Lessing, no primeiro volume da sua auto biografia. O tempo da infância é longuíssimo, um ano é uma vida e se arrasta como a eternidade (Lessing), mais tarde ele vai acelerando, mas ainda tem uma certa consistência. A velocidade do tempo ainda é compreensível até os 40 anos mas, depois disso, o tempo voa, sem avisar a ninguém. Mann faz uma longa reflexão sobre o tempo, da qual eu não lembro muito coisa, mas ainda ficou sua descrição de que uma temporada, uma nova experiência, começa devagar. Quando chegamos num lugar para um mês, depois de três dias, parece-nos difícil acreditar que chegamos há tão pouco tempo. Depois do primeiro quarto do tempo, os dias começam a se amontoar um no outro, vão ficando parecidos e, de repente, lá se foi o tempo e não acreditamos quando vemos que já está na hora de voltar. Tudo isso é para dizer que estou começando a ter a sensação de que a maior parte do tempo já passou, não vai dar mais tempo fazer muita coisa, daqui a pouco vai chegar a hora de embarcar. Contei as primeiras semanas, marquei o primeiro mês, marquei 10%, 20% do tempo e me perdi no caminho. Não lembro mais da marca de um terço. Minha próxima marca vai ser os 50% (31 de maio) e depois disso, já sei que o tempo vai desembestar descontrolado e me pegar com as malas por fazer. Pois então, daqui a pouco estou chegando!

27.4.05

Hum, que cheiro...

Pois, foi-se o inverno e os cheiros apareceram. Mas não foi uma boa notícia. O ar de Stavanger, desde que a primavera começou, cheira a adubo químico. Os ônibus não têm janelas laterais, só uma no teto, e se ela não estiver aberta, os ônibus cheiram a gordura velha, das roupas de frio nunca lavadas e que absorvem os cheiros das casas fechadas. E essa semana, o ônibus estava com um cheiro de cocô de cachorro... Bom, as flores ainda não desabrocharam, então, pode ser que quando passar essa primeira fase da primavera, quando as casas forem arejadas e as roupas lavadas mais freqüentemente, as coisas melhorem. Além disso, dei um passeio pela beira do fiorde e senti, não muito forte, cheiro de mar. Eta Faro Fino, estou parecendo aquele personagem de Patrick Suskind (O perfume), mas juro, foi a primeira vez que senti cheiro de mar. De qualquer forma, o sol é incrível, muito forte mesmo, nascer do sol às seis da manhã e por do sol às 9:30 da noite. Cortinas e óculos escuros são muito úteis.

26.4.05

Faxinas de primavera


Num lugar tão frio e com 5 meses de muita escuridão, as pessoas ficam transtornadas com a primavera. Todo mundo quer comprar e usar roupas novas, faxinar as casas e coisas assim. Eu ando pelas ruas e vejo que muitas casas estão pintadas de novo. A Prefeitura também anda pelas ruas, plantando canteiros de flores, varrendo, limpando. Em Salvador a gente nem nota a diferença entre as estacões. É claro que o calor é maior ou menor, mas aqui há uma cultura de estações. As pessoas comem coisas diferentes, praticam diferentes atividades, mudam os ritmos de trabalho e lazer, é toda uma renovação de quatro em quatro meses. O legal é que os bosques têm produtos de cada estação: morangos, framboesas, aquelas frutinhas silvestres são do verão, cogumelos no outono, hum, me lembro de Luluzinha e Bolinha, principalmente aquela menina da historinha que Luluzinha contava para o Alvinho. A história sempre começava com a menina (que tinha a cara de Lulu, mas uns remendos no vestido) catando frutas na floresta, com uma cestinha. Daí ela encontrava uma bruxa, ai, ai, que saudade, eu adorava.

25.4.05

Mais alguma coisa sobre comércio internacional

(Ih, depois que acabei de escrever isso, vi que me entusiasmei, talvez demais. Não levem muito a sério, quem sou eu para fazer análises políticas e econômicas? Esse povo sabido do Jacu quer dar palpite em tudo! Mas vou deixar, fica como conversa de bar, devo ter escrito muita bobagem)

Bom, meu irmão, produtor de frutas no Nordeste e um brasileiro vivendo na Noruega, manifestaram-se no meu blog, o primeiro apoiando minha fala e o segundo discordando. Tenho que ter cuidado para não entrar nesses debates que vejo nas listas de discussões na Internet (a nossa Universidade é um ótimo exemplo), em que fica todo mundo enfatizando as diferenças de opinião, ou tentando convencer os outros com argumentos bem emocionais, quando não com ironias e, o pior de tudo, ofensas. Bom, não desejo convencer ninguém, nem argumentar ponto a ponto, mostrando que tal argumento é correto e o outro não. Afinal, o assunto foge da minha esfera de “saber”, vamos dizer assim. Meus comentários no blog são uma forma de conversar com meus amigos e familiares no Brasil e, claro, não têm nenhuma pretensão a discussão séria. Um pouco como conversa de bar, que pode ser muito inconseqüente, embora ocasionalmente gere algumas idéias legais. Mas pensei em voltar ao assunto só para acrescentar mais algumas coisas. Entendo que posso estar errada e só estou falando sobre minhas impressões e sentimentos ante a realidade.
Sei que existem centenas de teorias para explicar porque uns países são ricos e outros pobres. Tenho visto as teorias clássicas do marxismo, as teorias da geografia e clima, as teorias raciais, as teorias culturais, sem falar nas teorias populares, de senso comum. Sei lá quem tem razão! Mas não gosto quando dizem que o Brasil é pobre porque os brasileiros são burros, corruptos, preguiçosos. Também não me inclino a adotar uma dessas teorias “científicas”, por falta de interesse mesmo em estudar o assunto, já que não é mesmo meu campo profissional. Entretanto, acumulando uma informação aqui e ali, penso que a comparação entre Brasil e Noruega, suas situações de riqueza e bem estar, têm que levar em conta a história recente e remota dos países. Os noruegueses, como uma cultura própria, já habitavam o Norte da Europa (e assombravam o resto) no começo da Idade Média. A terra era muito ruim mas as riquezas do mar incentivaram o desenvolvimento da pesca e da indústria naval, no que eles são mestres há mais de mil anos. Nunca houve escravos na Noruega (o tipo de exploração possível dos recursos naturais deve explicar a inutilidade da escravidão nas condições locais). A servidão dos feudos acabou em torno no século XIII, de forma que todos tiveram que cultivar suas próprias terras e pescar seus peixes, criando uma base material para a cultura da igualdade. A Noruega sempre foi um lugar pobre e sua população nunca foi grande, chegando mesmo a diminuir fortemente na pelo Século XV. Mas o conhecimento da navegação e da indústria náutica constituiu uma base firme para o desenvolvimento industrial. Até hoje, a população nunca ultrapassou 4 milhões e meio de habitantes. Até o meio do século XX, a Noruega foi um país pobre, mas a anos luz de distância da nossa terra. Quando os portugueses aportaram no Brasil em 1.500, encontraram povos na idade da pedra, caçadores coletores com agricultura incipiente. Os habitantes primeiros já eram milhões a mais do que os noruegueses. Fomos colonizados por um império que viu a terra como uma fonte de recursos a serem exauridos para financiar sua prosperidade e suas guerras na Europa. Os portugueses arrasaram com os índios, de uma forma ou de outra. Mais tarde, importaram milhões de africanos, também de culturas na Idade da Pedra, para usá-los como recurso barato, sem necessidade de preservação, vista a facilidade de reposição. Duzentos anos depois, esses milhões de escravos foram libertados, sem terra, sem educação e sem empregos os seus descendentes vagam desde então, buscando a sobrevivência. Não há muita semelhança, eu penso, nas nossas histórias. Daí, quando olhamos a situação agora, não podemos esquecer o passado que criou as condições atuais. Seja qual for a explicação mais profunda das diferenças existentes, alguma coisa na história deve ajudar a entender como podemos estar tão distantes. Além disso, no final dos anos 60, os noruegueses descobriram campos gigantescos de petróleo na sua plataforma continental e, dispondo de abundantes recursos de energia hidráulica, podem vender a sua produção (a segunda maior do mundo) a países que são seus vizinhos e têm forte necessidade de energia. Uma certa coincidência existe aí, eles têm em abundância aquilo que o mundo precisa e está disposto a pagar caro. E são apenas 4,5 milhões de pessoas. É uma das sociedades mais igualitárias do mundo, com uma cultura de justiça e ética admirável. Mas isso não se fez de um dia para o outro. Geografia, história e mesmo sorte podem fazer parte da equação. Além disso, não necessariamente isso é eterno. Atualmente, a Noruega tem absorvido uma certa quantidade de imigrantes, com certeza pela necessidade de mão de obra numa economia em expansão. O lugar é tão frio o ano do que só mais recentemente os emigrantes resolveram arriscar. Ora, a menos que esse fluxo seja contido em limites suportáveis, é claro que as pressões vão aparecer no futuro porque, afinal, as riquezas não são inesgotáveis. Basta olhar a situação dos países que acolheram imigrantes por décadas e ver como a situação pode mudar, de acordo com as condições econômicas.
Mas o mais importante, para mim, é: o que vamos fazer agora, como sair da situação em que nos encontramos? Como reduzir a desigualdade, melhorar nosso bem estar e construir uma sociedade justa e pacífica? Para falar a verdade, tenho uma certa desconfiança com a explicação marxista clássica, na boca de todo político de esquerda no Brasil. O neoliberalismo, o imperialismo, a exploração, o capitalismo em fase avançada. Não vejo muito futuro nessas explicações, muito menos numa revolução política. Quando olho o mundo, não vejo ninguém tentando isso, as esperanças todas se concentram em gerar riquezas, distribuí-las justamente, mudar as idéias, educar o povo. Não faço idéia se isso é certo é errado, sei que é conversa de leigo. Mas penso que não adianta voltar ao passado e culpar os colonizadores pelas nossas mazelas. Não que eles não sejam culpados, mas o reconhecimento dessa culpa não vai nos salvar agora. Como podemos melhorar? Todo mundo sabe que o Brasil precisa educar seus jovens, desenvolver ciência e tecnologia, garantir saúde e segurança para todos, dar bons salários às pessoas, dar aposentadoria integral aos idosos. Mas isso é apenas plataforma de candidato. No Brasil, os candidatos competem entre si para ver quem é capaz de descrever melhor as necessidades do país. Mas saber o que precisamos não é suficiente, precisamos descobrir onde vamos arranjar dinheiro para tudo isso. Não podemos esquecer que nossa renda per capita não chega a nove mil dólares, enquanto a da Noruega beira os 38 mil. Mesmo o primeiro produtor mundial de petróleo, a Arábia Saudita, não tem uma renda per capita alta, em torno de 10.000. Daí que eu penso que o comércio internacional deve ser uma parte importante do problema. Acho muito injusto mesmo que os produtores agrícolas europeus sejam pesadamente subsidiados pelos seus governos, para evitar a competição de produtores dos países pobres. É uma vergonha o modo como os americanos taxam nosso suco de laranja para proteger os seus produtores. Só conseguimos vender tão barato a ponto de entrar nesses mercados porque remuneramos nossos trabalhadores miseravelmente. Mas se os produtores se organizarem em conjunto, talvez eles possam pressionar por mudanças. Gosto muito dos esforços do governo Lula nas organizações mundiais de comércio. Mas acho que os consumidores europeus e os ricos em geral têm pouca consciência das injustiças que existem no comércio internacional. O consumidor procura os produtos mais baratos, é claro. Ninguém fica pensando se a pessoa que colheu aquela fruta ganha mais ou menos de um dólar por dia. Mas a mão do mercado pode ser conduzida pela força do poder. E o poder tem muito a ver com idéias e vontade política. Um movimento pelo comércio justo é muito bom. Eu apoio.